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Céu de Campo Grande.
© Cristina Livramento


No estoy solo, ando con mis cinco sentidos
Acá el silencio se convierte en sonido
Todo lo malo que soñé, lo toqué
Pero esta tan oscuro que el miedo no se ve
Yo me huelo lo que siento por eso presiento
Que dentro del circuito me queda poco tiempo
En el próximo tren yo me monto
Preparame la cena que regreso pronto

Preparame la cena, Calle 13.

Toniolo em Campo Grande, Rua 26 de Agosto.
© Cristina Livramento

Polícia prende pixador por assalto em Cachoeirinha, provas de que estava em Esteio são ignoradas

Matéria produzida para o site Umbigo das Coisas.


Trilha para o passado. Cida Moreira cantando Surabaya Johnny.

© Eduardo Barrox

São Paulo (SP), junho 2007

desabafos cacofônicos de quem não cansa de amar

Na manhã de domingo sem chocolate pela manhã, enquanto tomo o café ralo e quente ouço Mutantes e lembro de você. Lembro das manhãs ensolaradas de inverno na sacada em que fazíamos fotografia. Você andava descalço pela casa com o gato preto ao seu lado, quase sempre. Nossa cama com lençóis emaranhados. Restos de nosso cansaço, ilusões e solidão. Teu abraço na porta de casa com restos de tinta e adesivos. Minhas roupas jogadas no chão e você fazendo fotografia. Ele me disse que depois de tanto tempo eu ainda falo de você. Me espanta que as pessoas não tenham força para assumir o vácuo negro em que todos nós nos encontramos.

Faz sol lá fora e aqui não faz frio. Acordo para mais um dia imaginando como seria estar lá. E sua lembrança segue abraçada comigo. Restos de fotografia. Restos dos beijos que demos. Nossas caminhadas de mãos dadas por Pinheiros, pelas quadras de infinitas possibilidades. Nós queríamos que tivesse sido tudo diferente, mas nos amamos da mesma maneira e você, apesar de não estar aqui, ainda segue comigo em sonhos e em pensamento. Ainda tenho restos de você nas minhas atitudes. Você pode me fazer uma visita como naquele dia em Viradouro? Prometo não pedir pra você ir embora e prometo que vou ficar quietinha sentindo você sentar no travesseiro e cheirar meu cabelo e fazer carinho na minha cabeça. Joe, você ainda está aí?

Eu sei que você entendia perfeitamente minha solidão e minha desgraça em existir justamente por você se sentir da mesma maneira. Tantas imperfeições. Você só queria ser amado, mas se transformou em um errante profissional sem conseguir entender como recuperar você de você mesmo. E as histórias e os encontros errantes, continuam, meu amor. Até quando?

Sofro os dias confinada ao silêncio, a dor e às lágrimas. Você é minha companhia nesse espaço de cores cinzas e cheio de neblina. Meu refrigerador não funciona e com você vem a lembrança dela nua em fotografia preto e branco. Quanto amor desperdiçado. Acho que não, mas esses amores todos intocáveis e impossíveis seguem impregnados em cada pêlo do meu corpo. Vez ou outra eles invadem meu sexo e minha boca e sou de novo desejo e alegria. Até cair de joelhos e desabar em choro e não querer mais viver. Tudo parecia tão cinema francês, preto e branco em cor, mas era tudo mentira.

Um dia após o outro caminho ouvindo mentiras novas como a frase dele “o que aconteceu há cinco minutos eu não lembro mais”. Até quando terei que me reiventar  Até quando serei atordoada por essas frases soltas que insistem em cravar meu coração e minha carne. Até quando seguirei por essa estrada poeirenta acumulando amores incuráveis? Isso já virou uma comunidade hippie, um hospital de loucos, uma cela de assassinos de ilusões. Eu, uma pistoleira, a procura de sangue e cabeças cortadas. Maria Bonita sedenta por carnificina e sexo suado sob o sol do meio-dia. Não é bonito demais os urubus voando no céu de São Paulo enquanto os aviões aterrisam em Guarulhos? Eu acho lindo demais, baby, lindo demais.

 

Cristina Livramento

el sonido

vi tua foto no caderno
tua assinatura no meu jeans
teu esperma na minha bota
daquele dia que você gozou no meu rosto
sob o sol de inverno
sob a lua do outono

a tesoura sobre a mesa
teu sangue nas minhas mãos
no quintal as palavras penduradas em galhos
minuano de dissimulações
eu ouço você rugir pela madrugada 

escrevo cartas para novos amores
escrevo sangue
escrevo lágrima 

pego uma avião na quinta
pra bem longe
das minhas lembranças 

quero verde no meu quintal
quero azul nas minhas mãos 

no fim da tarde, teu sangue numa taça
servido em bule de prata


Davi Kinski e Fernando Savaglia no Sarau Soul Kitchen, no Teatro Cemitério de Automóveis, em São Paulo (SP).


Fernando Savaglia e Clovys Tôrres no Sarau Soul Kitchen no Teatro Cemitério de Automóveis, em São Paulo (SP).

eu espero.
© Cristina Livramento


Esse vídeo foi feito, em 2010, semanas antes de mudar para Porto Alegre. É visível minha cara inchada e o semblante triste. Apesar do novo amor, o que me fez acreditar em vida nova, eu não queria sair de São Paulo. Mas sou uma romântica incurável e quando amo, escalo os edifícios mais altos – apesar de ser sempre jogada lá de cima. Freud explica.

Ver o vídeo do documentarista Daniel Rubio, causou desconforto na época. Primeiro por me ver decadente e segundo por me ouvir falando errado. Eu não sou tão torta assim, eu não falo errado desse jeito. Já convivia com um gaúcho há alguns meses e foi essa convivência, com o olhar do porto-alegrense, que pude saber quem eu sou. No deboche, na ironia, no escárnio travestido de doçura e simpatia.

Ao contrário de muita gente que conheci em São Paulo e em Porto Alegre, eu não tive uma educação de base – família – que fosse consciente da pronúncia da língua portuguesa. Minha mãe inventa palavras a todo o momento. Meu pai… continuo procurando em álbuns de retrato. Minha vó era analfabeta e meu vô, quem realmente lia muito, morreu cedo, quando eu era adolescente.

Quando saí de Campo Grande eu era uma caipira do mato. Depois de sete anos fora do Mato Grosso do Sul consigo ter consciência do quanto eu era brejeira, bugra, arrogante. Claro que era arrogante porque qualquer garota caipira que sonha em ir pra cidade grande, em uma família machista, em que usar batom vermelho é sinônimo pra puta, eu era uma tremenda arrogante.

Quando cheguei em São Paulo, de 2006 a 2010, nunca ninguém fez um comentário sequer sobre meu jeito de falar. Apesar de escrever, pensando em publicação de livros, desde 1999, a minha linguagem oral é típica de periferia, de caipira.

Circulei em rodas de intelectuais, gente cult e cool, o tempo todo. Artistas plásticos, atores, músicos, performáticos, todo tipo de gente e nunca, em nenhum momento, ouvi algum comentário pejorativo sobre minha maneira de falar.

Quando cheguei em Porto Alegre, uma das primeiras situações que passei a enfrentar foi justamente essa. Foi o gaúcho que me chamou a atenção para ouvir o que eu dizia, como dizia. E não pense que isso se aplica somente a mim e a minha caipirisse, isso se estendeu à maneira de pensar, de se colocar no mundo e interagir com os outros.

O gaúcho é cruel demais com os diferentes. Se você não é do Rio Grande do Sul já é um problema, se você não baba ovo em cada tu e tchê que eles dizem, é outro problema, se você não concorda e apresenta um mundo novo – sem querer convencer ninguém a nada – eles se calam. Dói demais a indiferença do gaúcho quando você fala de experiências que não tem a mínima relação com o universo deles.  Você fala e ouve o silêncio percorrendo o Pampa em noite sem lua.

Vou dar um exemplo. Uma gaúcha, outro dia, em São Paulo, perguntou onde eu tinha morado em Porto Alegre.

- Agronomia!

- Ah, mas é por isso que você não se adaptou. Sabe o que é o Agronomia, cutucando outra pessoa, é como Cotia aqui em São Paulo. É um nada!

E de cinco em cinco minutos colocava a mãozinha no peito pra falar sobre os cinco anos que morou na Austrália e como o Bom Fim, Santana, Cidade Baixa, Menino Deus são os lugares mais vibrantes culturalmente, muito mais do que a Vila Madalena, em São Paulo.

Até onde eu sei a Vila Madalena FOI isso tudo na década de 80. Faz um tempinho, neh, querida?

O gaúcho despreza as coisas mais bonitas com que ele convive diariamente, o Batuque, a história, a negritude, as pegadas de seus ancestrais e se apega a uma tradição que eles mesmos criaram a respeito de si mesmos – cultuam o próprio culto e desprezam afu tudo que esteja fora desse circuito.

Quando disse que foi o Agronomia, a periferia, essa solidão e confusão de sentimentos que me ensinaram muita coisa, a gaúcha perdida na cidade de pedra disse de bracinho cruzado e balançando a cabecinha:

- Tipo o quê?

- A reconhecer como sou preconceituosa, minha identidade, a ser uma jornalista de verdade, a encarar meus piores demônios, a ser livre e a descobrir a beleza da vida nas coisas mais insignificantes.

Ouviu o barulho do Corel travando? Foi o som que a cara dela fez quando disse isso.

Aprendi a ser gente em Porto Alegre, a reconhecer em mim o quanto de caipira, de gente do mato, de periferia eu carrego nas minhas botas. Graças a Porto Alegre reconheci o tanto de sangue negro que tenho nas veias. E me orgulho disso. Muito mesmo.

Quando, de volta a Terra de Marlboro, ouvi a farmacêutica contar que o marido, muito tímido, precisou fazer palestras pra empresa, “ponhava” ela pra ver, eu consegui ouvir e ter o respeito que é preciso pela identidade, a história que cada um de nós carrega em si. Não é possível que se viva uma vida inteira, depois dos 40, se sentindo superior e melhor a tudo e todos.

Hoje, eu me emociono muito quando lembro tudo o que vivi em Porto Alegre, de bom e de ruim. Só tenho a agradecer: a convivência, o desespero, o medo, o pânico, a depressão, a miséria, e a descoberta de numa nova vida, a beleza do Guaíba à noite, o pôr-do-sol na Rua da Praia, as conversas pelo centro a partir da Casa de Cultura Mário Quintana, a arquitetura da cidade, a caminhada pela madrugada com os guris do pixo, a alegria do encontro com os funcionários da Lanchera e todas as imagens que me tornaram uma apaixonada pelo Rio Grande do Sul.

 

- Obrigada Rio Grande! Muitíssimo obrigada.

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